Ultimamente tenho visto esse fenômeno – que na verdade não é recente, mas com as “discussões” públicas a respeito de temas como Hope, a propaganda da Caixa com o Machado de Assis branco e o Rafinha Bastos, ele tem aparecido aos meus olhos o numa freqüência nunca vista antes nesse País.
É o fenômeno do “enquanto isso os políticos roubam”. Essa frase é usada sempre quando se quer desclassificar uma questão importante para determinado grupo, seja os negros, as mulheres, as lésbicas, os gays, enfim, minorias em geral. Nos comentários da notícia sobre o novo vídeo feito pela Caixa, agora colocando o Machado de Assis como ele de fato era, mulato, muita gente diz: “pra que perder tempo com essas bobagens? enquanto isso, tem um monte de político roubando”.
Essa frase pode vir de outras maneiras: “e enquanto isso, tem um monte de crianças sofrendo na África”, ou “e enquanto isso a gente tá destruindo o mundo, poluindo o meio-ambiente” e por aí vai.
O mais curioso é que quase sempre as pessoas que erguem a voz para protestar (sabe-se lá porque essas lutas as incomodam tanto.. na verdade se sabe sim, é porque pode tirar elas de uma situação confortável ou privilegiada) contra o protesto dos outros quase nunca fazem nada a respeito do que dizem ser tão mais importante que tudo.
Falta a compreensão de que uma democracia é formada por diferentes vozes e diferentes lutas. Há pessoas que lutam por várias lutas ao mesmo tempo, tem gente que dedica a sua vida toda a uma única causa, tem gente que não defende nada em particular, enfim. Cada um vive uma realidade única, e tem que lidar com essa realidade. Como é que você pode dizer a um negro que se vê todos os dias lesado na sociedade que a luta dele e as preocupações dele não são importantes porque tem gente morrendo em outros países ou porque tem políticos corruptos em Brasília? Nenhuma luta deve excluir a outra. Cabe a cada um resolver as suas prioridades e lutar por elas. Não acredito que as lutas devam necessariamente ser separadas, mas com certeza não acho também que uma luta tem menor valor que a outra.
Da próxima vez que for alegar que um político está roubando “enquanto” um grupo está lutando por um direito, lembre-se de algumas coisinhas:
1) democracia é isso: muitas vozes, discussões, discordâncias. enfim, pluralidade. os direitos são conquistados, as mudanças culturais muitas vezes também o são. mulheres, gays, negros, cada um tem uma luta específica, e muitas vezes essas lutas se dialogam, mas tratam de realidades diferentes. e afetam muito grande parte da população brasileira, e, conseqüentemente, o desenvolvimento do País como um todo.
2) o que você está fazendo contra a corrupção? você por acaso é engajado em algum grupo de transparência política? vc evita ser conivente com práticas comuns do dia a dia, como comprar a carta de motorista, dar um “jeitinho” nas multas, pagar por fora para agilizar processos de obtenção de documentos entre outros?
3) o que você sabe sobre a realidade dessas pessoas que estão em determinada luta?
Enfim. Acho uma sacanagem, e acho muito de baixo nível, querer diminuir uma questão apontando para qualquer outra coisa desse tipo. Falei!
[...] Ou como foi dito no Contra Cultura: [...]
Ótimo texto, Maia! Vou deixar ele na manga pra cada vez que eu escutar esse “argumento”.
Pra não perder a viagem, repare, normalmente, os defensores da luta contra corrupção e etc, são aqueles conservadores que consideram os movimentos de esquerda, movimentos de vagabundos, que consideram movimentos LGBT, movimentos sem sentido, ditadura gay e etc.
Mano, repara!
Aí, parece que, em suas posições pomposas sobre o governo, são extremamente intelectuais! Que sabem realmente o que se passa com a nossa sociedade e que não perdem tempo com as besteiras alheias! ISSO é ideologia pura (no sentido marxista de ideologia e etc). Exatamente ISSO!
Puta merda, eu visitado um blog onde o autor falava algo exatamente assim sobre o Rafinha Bastos, e pior, ainda chegava a uma conclusão retardada. Botando a culpa nos cidadãos e etc.
Admito que eu relaciono um monte de assuntos nada a ver pra explicar minhas conclusões, mas o desgraçado conseguiu falar sobre Rafinha Bastos, mudar o foco pros políticos corruptos e como o brasileiro não se preocupa com isso e, no fim, ainda botar a culpa no cidadão.
Digo, isso é bronha intelectual em pessoa!