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Verdades construídas 11/08/2010

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 18:02
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O homem é mais forte, e a mulher mais fraca. O homem é ativo, a mulher passiva. Ela, aliás, tem mais compaixão, é mais suscetível às emoções e certamente é a mais apropriada para criar os filhos, já que os ama naturalmente. E o maior sonho de uma garota é ter um lindo e duradouro casamento. Se você concorda com a maioria dessas afirmações, parabéns: você aprendeu direitinho a lição que a sociedade tenta te ensinar.

Convenções

Uma das principais correntes da sociologia preconiza que a realidade, tal como a enxergamos, entendemos e questionamos, é uma construção social. Isso quer dizer basicamente que tudo o que entendemos por conhecimento (e não só acadêmico, mas o senso comum) é algo construído em conjunto, e produto de uma série de circunstâncias específicas.

Os autores Berger e Luckmann foram um dos primeiros a chamar a atenção para essa idéia. No livro A construção social da realidade, eles discorrem sobre como essa construção se daria e quais seriam as nossas formas de apreensão do mundo. Mas trouxe esse livro à tona para destacar um ponto nele colocado: a nossa grande dificuldade em perceber as verdades como coisas construídas, e não absolutas ou “naturais”, isto é, “as coisas são assim porque são assim”. Um dos principais motivos para isso é até óbvio. É muito difícil que consigamos enxergar a gênese, a origem de tantas verdades e paradigmas sobre os quais nossas vidas são construídas.

Não sabemos, por exemplo, o contexto exato que levou a formação deste ou daquele conceito, desta ou daquela necessidade. Nem mesmo quais eram as intenções ou ilusões das pessoas de séculos atrás. Isso não quer dizer que não haja como investigarmos o nosso passado. Felizmente, há muito material de alguns séculos pra cá, e cada vez mais formas diferentes de se analisar a mesma fonte são descobertas. Mas, mais uma vez, é impossível se descolar da sua própria formação. Um dos desafios mais difíceis é conseguir se policiar de forma a perceber, o máximo possível, quando você está simplesmente repetindo uma bagatela de valores construídos e achando que é a verdade absoluta e incontestável. Não é tão óbvio quanto parece. Sem perceber, você acaba pensando como foi ensinado a pensar – e isso não é exclusividade de ninguém.

“No coração de mãe sempre cabe mais um” – será?

Mesmo a idéia de que o amor materno é um instinto natural pode ser muito bem contestada – como já foi, inclusive, em um ótimo livro chamado Um Amor Conquistado – O Mito do Amor Materno, de Elisabeth Badinter. Todas as mulheres nasceram para ser mães e no sacrifício dedicado a essa tarefa, vão encontrar a sua verdadeira vocação e prazer, certo? E, da mesma forma, mulheres que não gostam de serem “mães” e prefeririam não ter tido filhos são anormais, monstras, fogem à regra, certo? Você pode responder que não, que as mulheres independentes de hoje e que não têm filhos estão aí para provar isso. Mas o que você diria se soubesse que a sua mãe na verdade não encontrou tanto prazer em te criar? Ficaria chocado, talvez? Eu ficaria. Quase todos ficaríamos. E por quê? Por que nos livrarmos de convicções construídas por séculos é simplesmente muito difícil.

No citado livro, a autora conta casos de época, principalmente dos séculos XVII e XVIII, ao mesmo tempo em que traça a história da família, das relações entre filho, pai e mãe entre si. Através de fatos, de citações de autores e de explicações que buscam no contexto a criação de diversos conceitos, ela vai mostrando como que o ideal de mãe e esposa foi construído muito provavelmente com base em necessidade econômica e política. E diversos relatos selecionados por elas mostram: já foi muito comum mulheres não criarem seus filhos e quase não haver estranhamento nisso. Em vez de criarem os filhos, mandavam-nos para amas-de-leite, muitas vezes em outras cidades. Ficavam anos sem ouvir dos filhos, isso quando eles sobreviviam.

Passiva, eu?

E o que isso tudo tem a ver com as perguntas do início? Ora: já li um bom número de vezes frases como “o homem conduz, a mulher é conduzida”, ou “o homem naturalmente é caçador” ou coisas do tipo. E eis aqui uma idéia: passividade e atividade são conceitos, também, humanos. Construídos socialmente na sua significação e no seu uso. Uma mulher é passiva por natureza? Ou porque é desde cedo ensinada, educada a ser assim? Nunca, mas nunca mesmo, subestimem o peso das pressões sociais sobre o indivíduo. Ou você não se sente impelido a acatar uma série de valores e obrigações tidas como “masculinas” mesmo sem saber de onde elas vêm? A mais clássica: homem que não é louco por sexo é algo fora do normal.

Ah, a biologia!

Aqui é necessário fazer um parêntese. Muitos me falarão sobre a biologia, sobre como pesquisas comprovam ou isso ou aquilo, ou sobre o papel do macho como “espalhador de semente”e outras coisas do tipo. Mas é o caso também de se lembrar que cientistas são humanos como outros quaisquer, ou seja, sujeitos como qualquer um às influências e padrões culturais. Ou você que se esquecer que já foi perfeitamente normal fazer estudos sobre a inteligência das raças humanas, considerando a branca superior? E isso ia em consonância com o quê? Com a cultura da época, sim. Ou ainda saber se uma pessoa era criminosa ou não pelas medidas do seu crânio e feições no rosto. Ou mesmo quando cientistas recomendavam sem medo a lobotomia ou outras práticas não muito tempo atrás que hoje seriam consideradas horríveis? E gays, que eram considerados doentes, vítimas de uma patologia? E não se esqueçam que séculos antes de serem considerados doentes, gays eram normais na Grécia Antiga, por exemplo. Ou seja, a ciência, por mais metódica que tente ser, acaba sendo, muitas vezes, reflexo de sua própria sociedade e de seu tempo.

E que dizer também dos muitos interesses por trás dessas tantas e milhares de pesquisas científicas que surgem todos os dias? Empresas, instituições e até mesmo governos podem estar por trás delas. E a motivação de uma pesquisa faz, sim, diferença no resultado.

E por fim, pegue qualque revista, jornal ou programa de TV: com certeza basearão diversas afirmações com pesquisas que revelaram que não sei quantos por cento de tal amostra responderam tal coisa. Querem desvendar a humanidade toda através de estatísticas, de amostras de pesquisas que muitas vezes são completamente insuficientes pra explicar uma questão. Quando falo que a ciência é a nossa nova religião, não estou exagerando. Ela virou nossa nova forma de perpertuar valores e até mesmo morais. Um papel antes reservado somente à religião. Não estou dizendo, no entanto, que ela não sirva para nada ou que não esclareça nada. Me refiro à crença indiscriminada no que pesquisas e cientistas afirmam por aí. Afinal, se 90% dos homens responderam que pensam em sexo todos os dias, isso apenas mostra a realidade atual, e não consolida uma regra natural do humano, e sim uma cultura que é cultivada.

Transvaloração de todos os valores

Um filósofo que está na moda, o Nietzsche, propunha um desafio extremamente difícil para a humanidade. Através de um método genealógico, que busca a origem de todos os nossos valores, ele queria que nós conseguíssemos ultrapassá-los. Estar acima dos valores, das nossas convicções, dos nossos julgamentos. Isso significaria até mesmo parar pra pensar sobre se matar uma pessoa faz alguém virar mau. E também as coisas mais triviais, que dispensamos pouca atenção, como por que tal comida é boa ou não. Claro que o objetivo é chegar aos valores mais profundos e mais caros, como o amor (e não só o passional). Pense realmente bem a respeito: imagine questionar tudo, mas tudo mesmo, que você sempre foi acostumado a pensar? Isso não deixa ninguém confortável. Ter que confrontar a si mesmo, a idéias que você adotou como suas, que norteiam suas ações e objetivos no mundo, não é fácil. Mas acredito que pelo menos uma tentativa é necessária, e muito.

Estamos em um período em que tudo está mudando, um período em que os paradigmas estão em crise e também a nossa forma de se comunicar, de ver o mundo, de enxergar a vida está em transição. E, apesar disso, continuamos insistindo em muitos pontos, tais como esse da passividade feminina. No desejo de ser dominada, na fraqueza do sexo, na falta de virilidade. Esses pontos são reforçados através de diversos instrumentos, e acredito que um dos principais deles seja a pornografia, juntamente com a mídia em geral. Mas isso sempre vai haver. O que não deveria deixar de acontecer é o auto-questionamento, é o parar pra pensar, é tentar ultrapassar tudo que nós consideramos como certo e construir uma nova verdade mais justa e mais consciente. O momento de agora, creio que não poderia ser melhor para isso.

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Introdução

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 17:35

Hey, folks

Aqui fala uma estudante de jornalismo, paulistana de 20 anos. O principal desse objetivo é escrever sobre cultura e feminismo, procurando conjugar os dois. Acredito que haja uma grande lacuna de blogs desse tipo no Brasil, e quero contribuir para destruir os estereótipos em geral associados aos gêneros (homem, mulher e outros) e às feministas (vistas como o oposto ao machismo, e também o oposto ao feminino – visão bem equivocada!).

Quero também colocar aqui minhas impressões sobre filmes, outros blogs, livros, programas de TV etc. Como jornalismo é a minha área, vou procurar não só comentar do ponto de vista de uma feminista, mas também de uma jornalista. Isso me leva a outro objetivo do blog: chamar a atenção para o papel da mídia, e como ela tem exercido sua tarefa.

O nome do blog, “contracultura”, é motivo para um post futuro.

 

 
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