CONTRACULTURA

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Liberdade de expressão pra quem? 30/10/2010

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 12:08
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Ultimamente tenho me irritado muito com a posição dos principais meios de comunicação (bom, acho que não sou a única, né), que é a de vitimismo. E hipocrisia, por que não? Vejamos a Folha e o Estado, só pra começar. O primeiro processou um blog que fazia brincadeira com o nome de jornal (era A Falha de S.Paulo), e conseguiu que o site fosse tirado do ar. Já o segundo, demitiu uma de suas mais conhecidas colunistas, a Maria Rita Kehl, porque ela escreveu uma coluna que bem, os editores não devem ter gostado muito. Enquanto isso, ambos saem por aí se dizendo ameaçados pelo governo que, imagine!, quer criar um órgão que regulamente a mídia. Isso só pode ser censura, né? Não, não e não.

Como bem disse o João Brant em uma palestra na minha faculdade, a liberdade de expressão é um direito humano, e não da imprensa. O direito que temos é de ver a nossa voz divulgada nos meios de comunicação, é ver a voz de todos os outros, e não ver a voz do chefe que comanda a empresa. A TV e o rádio são concessões. Ninguém fala da empresa que usa a concessão de TV como fala da concessão que a emrpesa de ônibus usa, né? A empresa de ônibus passa por avaliações, é claramente vista como um serviço público. A concessão de TV não. A de rádio não. Aliás, quando grupos independentes se apropriam de linhas de rádio são considerados clandestinos, quando na verdade são os únicos fazendo uso legítimo daquilo: dando voz a outras pessoas, a outras regiões, a outros públicos.

Nos EUA e na Inglaterra, só pra ficar nesses dois, existem órgãos ou mecanismos que regulamentem a mídia. Nos EUA, os canais de TV são obrigados a transmitir uma cota da programação que seja produção de outros grupos, independentes, que não sejam relacionados aos canais. E são obrigados a cobrir outras regiões, e não só uma ou duas (SP ou Rio, oi?). Na Inglaterra, quando algo na TV não agrada à população, eles têm a quem recorrer: ao órgão regulamentador. Não se trata de um mecanismo de censura do governo, e sim de um mecanismo para que a população possa cobrar o que se espera de uma TV: um serviço de boa qualidade e que atenda aos interesses do cidadão, e não da empresa.

E antes que digam “ah, mas pode se processar os canais quando você não gosta”, eu respondo: quem é que tem tanto dinheiro e tempo pra manter um processo por anos aqui no Brasil? E contra uma Globo ou SBT da vida, que tÊm muito mais dinheiro e advogados que um simples cidadão? E o que dizer do tempo que leva? Até sair um direito de resposta, nos moldes tradicionais em que costumam ocorrer os processos, os cidadãos já perderam em muito a sua causa.

Por isso, acho muito seguro dizer que quando saem por aí chorando porque vão perder sua liberdade de imprensa, digo outra coisa: tão é com medo de perder sua liberdade de empresa mesmo. De resolver que a liberdade de expressão é deles e de mais ninguém e que isso também significa se eximir de qualquer responsabilidade. Podem fazer piadas com gays, negros e mulheres à vontade, e se alguém reclamar, é um ataque! É censura! Não é não! Ter liberdade é se responsabilizar pelo que diz, pelo que faz. E não o oposto. Me digam se vocês acham que existe liberdade de expressão em um país onde mais ou menos quatro grandes empresas controlam toda a mídia, e sendo que uma delas muito mais do que todas a soutras? E a TV digital, que poderia servir pra expandir os canais abertos pra mais concessões e novas vozes, foram dados aos mesmíssimso canais. E os políticos, que não podem ter concessões públicas, têm muito mais envolvimento com rádios e TV do que se vê por aí. E já se vê muito disso!

Quem realmente tá atacando nossa liberdade de expressão? Diante da TV, minha alternativa é me calar. É o espaço que me dão.

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Sobre provocação e vigilância 28/10/2010

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 16:37
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Essa história toda do horrível rodeio de gordas, juntamente com as discussões na lista de blogueiras feministas e mais a entrevista da Preta Gil me fizeram pensar nisso. Nisso de provocação e vigilância, que já já vou explicar. Antes só queria dizer que eu não vou comentar só o rodeio especificamente porque acho que elas já disseram tudo que eu diria (ainda que nesse caso nunca seja demais..).

O negócio é o seguinte. Como comentei num dos e-mails e depois uma outra pessoa também comentou, uma pessoa como a Geisy, ou uma mulher gorda, ou qualquer pessoa que desafie algum tipo de parâmetro da sociedade e/ou da mídia, é uma provocação. Afinal, a Preta Gil posando nua em seu encarte foi alvo de tantas piadas, tantas críticas, tantos comentários ofensivos por quê? Nunca vi ninguém falando da Britney, por exemplo, ou da Christina Aguilera, que já posaram semi-nuas ou nuas em seus respectivos encartes. E elas são só dois exemplos.

É que a Preta Gil é gorda, e pra piorar, é negra. Quer provocação? Ela nua no encarte de seu cd, se sentindo à vontade, em poses sensuais, mas que pelo visto são somente reservadas a quem a sociedade/mídia aprova. E o que acontece quando você se revolta, faz algo que não é esperado de você? Você é punido, das mais diversas formas. Desde as mais sutis até as escancaradas. Desde piadinhas rotineiras sobre gordas até rodeios. Não vejo porque separar muito uma coisa da outra. Pra mim, como a Lola também comentou no fim de seu texto, é tudo parte da mesma coisa. São formas que a própria sociedade cria pra que seus padrões culturais, para que as idéias dominantes permaneçam estáveis. É uma coisa repressiva, mas sutil. Sabe quando você é pequeno e vai fazer alguma coisa que te deu na telha e nem bem você começa e já vê o olhar da sua mãe ou do seu pai? Eles não disseram nada, mas só pelo olhar deles você já se sente errado de tá querendo fazer aquilo. Agora imagine que a sociedade toda tem um grande olho, e dá esse olhar a tudo e a todos sempre que precisar, das formas mais variadas e diversas.

Todo mundo critica os caras da Unesp, os caras da Uniban, os caras da USP (no caso da homofobia). O caso é que eles só foram mais explícitos em seus mecanismos de controle. Sem querer, é claro, diminuir a gravidade da questão ou o nível de humilhação, que tenho certeza que devem ser muito mais traumáticos do que outras coisas. Só quero dizer que é melhor ter uma visão mais ampliada da coisa, e não enxergar esses casos como isolados. Eles são só uma parte disso tudo, de um grande sistema vigilante e punitivo. Geisys e Pretas Gil, afinal, devem ser postas em seus lugares, não?…

 

Quando descobri que minha família é reacionária 17/10/2010

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 13:06
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A vida toda pensei de um jeito e não me dei conta. Não me dei conta de que as idéias que me passavam sempre pela cabeça não condiziam com o que eu ouvia que era o certo. Quero dizer, percebia certos preconceitos, certas incongruências. Mas não me parecia que fazíamos parte “daquele grupo”. Aquele grupo conservador, extremamente medroso, da sociedade. Até que juntei as peças: minha mãe quis tirar o dinheiro da conta na época da eleição de Lula, meu pai tem discursos raivosos contra o PT, eu mesma não suportava a idéia de votar em alguém que não fosse do PSDB. Ao mesmo tempo, eu defendia idéias consideradas socialistas, sem perceber que isso não casava com os pressupostos desse setor da classe-média! Como não vi tudo isso, não sei, talvez porque eu sempre fui acostumada a ouvir todos falarem desse jeito, parecia a única verdade possível.

Mas divago… a questão é que é um tabu enorme, por exemplo, defender o PT. Entre meus amigos, não há um que tolerasse a idéia. Todos, também, ficam na mesma ladainha: “vou votar no Serra pra Dilma não ganhar”. E eu já fiz parte dessa ladainha, em 2002. Porque o interesse aqui é unicamente se opor. Duvido que alguém tenha interesse pelo “programa” de governo do PSDB, ou mesmo saiba que isso existe. Quando falam de aborto, ficam na mesma onda da mídia (que está me irritando PROFUNDAMENTE) e ficam só apontando o fato de que Dilma, a terrorista, já foi a favor, agora diz que não é mais blablabla. Ai de mim se eu ousar discordar!

Agora entendo também meu enfado diante das “discussões políticas” nesse grupo todo, porque NÃO há espaço, não há diálogo. Se você vai contra essa onda, as pessoas te olham de um jeito que é como se de repente você estivesse de volta à Guerra Fria e fosse um comunista nos Estados Unidos. É como se de repente você se transformasse no que há de pior nesse mundo, porque imagine, você acha que negros, pobres, mulheres e gays merecem mais do que hoje em dia é “concedido”. Meu Deus! Quantas vezes não ouço essa ladainha de que “bandido bom é bandido morto”? Fiquei revoltada quando saiu a notícia de um motorista que atropelou dois caras que tinham roubado o laptop de uma mulher e o pessoal só comentou a mesma coisa: finalmente um herói na sociedade brasileira! finalmente há justiça! ele deveria ganhar uma medalha!. E tudo isso acrescentado dessa singela lamentação: pena que os bandidos não morreram. Uma mulher até disse: se fosse eu,  daria ré neles depois de atropelar, até ter certeza que tinham morrido!

Eis aí, meus caros, o discurso normal, raivoso, violento e conservador dessa parcela da sociedade. Aliás, eu ainda queo escrever mais sobre isso, mas a sociedade TODA é violenta e conservadora. E não quero cair em maniqueísmos aqui. Sinceramente, acredito mesmo numa palavrinha chamada contexto, ou melhor, num conceito, o chamado contexto histórico. Para mim, há uma razão, há fatores que levam, por exemplo, uma grande parcela da população ainda votar no Maluf, da mesma forma que leva a votarem no Lula ou em qualque routro político. A classe-média não é “má”. A classe-média é fruto de uma série de fatores que, realmente, não cabe a mim investigar agora, porque eu não sou historiadora nem estudei o assunto (ainda, pelo menos). E todo esse discurso dela foi construído ao longo do tempo, com diversos mecanismos, e ela é vítima e algoz, sujeito e o objeto dessa história.

Acredito, mesmo, que nada pode mudar se ninguém perceber a origem, se não houver reflexão, questionamento. De que adianta odiar com todas as forças os tais “reaças” se isso só faz alimentar o processo que já vem caminhando há séculos? Não é por aí. Não é na oposição, nas críticas raivosas, no ódio ou na mera decisão de “vamos ignorá-los” que as coisas vão tomar outro rumo. De verdade, eu era da classe reacionária, mesmo tendo sempre pendido a defender aborto, casamento entre gays, justiça aos mais pobres etc, sem saber! Isso porquen pensava essas coisas, mas tinha um medo desgraçado desse tal do PT, e de qualquer coisa que parecesse “fora do lugar”. Esse tipo de idéia contamina sua mente de tal forma, que você não consegue pensar “fora da caixa”. É preciso compreender isso, compreender que o maior problema não é a suposta natureza má, conservadora e egoísta das pessoas. É sim a alienação, a desinformação e o perverso sistema violento e repressor que hoje parece funcionar sozinho em nossa sociedade.

 

 
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