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Liberdade de expressão 2 03/11/2010

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 18:18
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hoje li um excelente livro do Eugênio Bucci chamado “Sobre Ética e Imprensa”, editado pela Companhia das Letras. Apesar de o livro parecer um tanto maçante pelo título e de interesse muito restrito, garanto que, em ambos os casos, é precisamente o oposto. Por mim, o conteúdo abordado no livro seria parte da formação das crianças nas escolas.

E o tema dele vai em consonância também com o que comentei, breve e toscamente, no post “Liberdade de expressão pra quem?”. Transcrevo abaixo alguns trechos do livro que achei bem esclarecedores:

Há outros cuidados que ajudam em dilemas entre o respeito à privacidade e o interesse público. Um deles é sugerido por vários críticos da imprensa: diferenciar o que é interesse público do que é curiosidade perversa do público (que pede o escândalo pelo escândalo, doa a quem doer). É verdade que ninguém consegue traçar a fronteira universal entre um e outra, não existe uma receita abstrata que seja válida para todas as situações,mas a simples lembrança dessa cautela já traz mais elementos para uma boa decisão sobre os casos concretos que se apresentem.

Nesse ponto, o maior problema é que a separação entre interesse público e curiosidade perversa do público, normalmente, costuma ser viciada por um certo preconceito de classe. Os personagens que se situam no topo da pirâmide social têm merecido mais esse tipo de preocupação do que aqueles que se situam na base. É tristemente curioso que só se fale em viasão de privacidade quando a pessoa prejudicada é alguém de posse ou de poder. É como se gente pobre não tivesse intimidade a ser preservada.

Os programas sensacionalistas do rádio e os programas policiais de final de tarde em televisão saciam curiosidades perversas e até mórbidas tirando sua matéria-prima do drama de cidadãos humildes que aparecem nas delegacias como suspeitos de pequenos crimes. Ali, são entrevistados por intimidação. As câmeras invadem barracos e cortiços, e gravam sem pedir licença a estupefação de famílias de baixíssima renda que não sabem direito o que se passa: um parente é suspeito de estupro, ou o vizinho acaba de ser preso por tráfico, ou o primo morreu no massacre do fim de semana no bar da esquina. A polícia chega atirando; a mídia chega filmando. As taras sexuais dos miseráveis são transformadas no prato do dia nos banquetes do sensacionalismo; as mortes trágicas viram show; as traições conjugais se transformam em comédia chula dos programas de auditório. É mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que um rico entrar nas bizarrias dos shows de televisão (…). Como vivem à margem dos direitos, essas pessoas não têm reconhecido o seu direito à privacidade; sua intimidade não existe – ou não vale nada. (…) É como se nem mesmo o sensacionalismo mais barato pudesse prejudicar a imagem de alguém que, afinal de contas, nem goza do direito de ter uma reputação. Aí, de modo privilegiado, aparece nítido o caráter de classe da ética jornalística praticada no Brasil. – pp 155 e 156 – grifos meus.

Outro trecho – juro que não é tão comprido quanto o anterior – casa direitinho com o que eu disse no outro post:

Ninguém aqui irá propor qualquer fórmula de censura ou qualquer colegiado de autoridades públicas que sejam encarregas de “filtrar” aquilo que a televisão pode veicular. A liberdade de imprensa é inegociável. Mas, como poder que são, os meios de comunicação requerem de seus controladores uma subordinação a valores éticos que construam – e não corrompam – a democracia em nome da qual a liberdade lhes é conferida. Não é a veiculação de conteúdos que precisa ser monitorada pela autoridade, mas o poder que precisa ser limitado – e isso significa limitar a propriedade dos meios eletrônicos de comunicação. É disso que se trata.

A democracia deve assegurar um regime em que prevaleça, no mínimo, a pluralidade de veículos informativos e a competição entre os órgãos de imprensa. Isso, infelizmente, como já foi visto, ainda não se verifica no Brasil no que se refere aos meios eletrônicos. Daí resulta um desequilíbrio que distorce a informação e que convida os proprietários a se esquecer da responsabilidade que lhes cabe. Eles, afinal, não precisam prestar contas a ninguém. A concessão pública de um canal a uma emissora de televisão no Brasil tem validade de quinze anos, e sua não-renovação depende da aprovação de, no mínimo, dois quintos do Congresso Nacional em votação nominal (…). Ora, isso é o mesmo que dizer que a concessão é perpétua. Que parlamentas quer arriscar-se a cair nas listas negras das redes de televisão?pp. 162 e 163 – grifos meus

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4 Responses to “Liberdade de expressão 2”

  1. Maíra Avelar Says:

    Oi, Maia!

    Um “subtrecho” daquele peimeiro trecho que você selecionou está numa prova de redação do ENEM que adoro trabalhar com meus alunos, justamente por abordar essa questão de invesão de privacidade x liberdade de expressão. Concordando com você, acho fundamental levarmos para a sala de aula discussões sobre ética na tv. Abraços!

    • maiacat Says:

      Oi, Maíra! Obrigada pelo comentário! Que bom ver que tem gente trabalhando com isso em salas de aula, porque realmente, é um tópico muito importante. E, em geral é tratado como se fosse um interesse específico ou que não diz respeito à própria democracia.

  2. Geovana Says:

    Olá MaiaCat, cheguei ao seu espaço virtual através do seu comentário no blog Escreva Lola Escreva. Fico feliz em saber que mais pessoas estão escrevendo suas opiniões nesse mundo virtual e fico feliz em conhece-las 😀 Principalmente por tb quero iniciar um blog mas ainda tenho um pouco de medo ao escrever, de que forma falar, como falar, e espaços como o seu são inspirações que tem me ajudado! Concordo plenamento com os excertos que vc postou, é a falta de uma direção ética que chama a instalações dos conselhos de jornalismo, assim como as outras profissões possuem. Abraços

    • maiacat Says:

      Oi! Que bom que você veio aqui, achei que não ia ver meu comentário lá na Lola hauuhua. E medo pq?? Se quiser mandar um texto pra eu publicar aqui (não que isso seja grande coisa, porque eu tô engatinhando aqui ainda), pode mandar pro meu e-mail! É maiagatachata@gmail.com.
      Bjo


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