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O que o Bolsonaro diria em outras épocas 25/05/2011

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 18:23
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Esses dias tenho me escandalizado com a celebração do “politicamente incorreto”, dos preconceitos e de um moralismo tradicional recheado de machismo e elitismo. Fico pensando como as pessoas que se orgulham de dizer que são “bem humoradas”, não são “ranzinzas” e portanto conseguem ver a graça em uma piada sobre estupro, não percebem o quão preconceituosas e retrógradas estão sendo. Penso que quando deslocamos as coisas de contexto, fica mais fácil perceber o quão isso tudo é absurdo. Digo sem pudor algum, eu acho sim um absurdo. E acho mais absurdo ainda que as pessoas confundam o direito à expressão com o direito a falar sem ser ter que sofrer qualquer tipo de resposta ou ressalva. Quando falam uma piada preconceituosa e alguém lhes chama a atenção – e não censura – já ficam exaltados: tenho o direito de falar o que quiser! é o direito à liberdade de expressão!. Sim, você pode falar tudo o que te der na telha. Ninguém te proíbe disso. Mas você pode e deve sofrer conseqüências se o que você fala for ofensivo para um grupo ou para alguém. Nenhum direito é absoluto.

Fonte: clique na imagem

Com isso de deslocar o contexto, pensei um pouco sobre o que os “politicamente incorretos”, ou mais diretamente, os famosos reacionários, diriam em diversas épocas. Fique claro que é caricatura, e generalização. E não seria preciso afirmar, mas obviamente repudio tudo isso que “inventei“.

Na abolição da escravatura:

“Agora todo mundo tá dizendo que negro não pode ser forçado a trabalhar. Ninguém tá vendo que é natural que negros sejam assim? Eles não têm como fazer um trabalho intelectual, como nós, brancos. E eu digo isso e as pessoas me criticam. Daqui a pouco vai ter brancofobia!!!”

Quando as mulheres passaram a poder votar:

“E a família, como fica? Se a mulher for ficar se metendo em assuntos políticos, como ficam nossas crianças, nossos lares, nossa comida, nossa roupa? Agora mulher tem que meter o bico em tudo, e quem vai falar contra é tachado de ‘conservador’. Eu não, eu sou com orgulho defensor da família tradicional, com Deus no coração. E o pessoal quer que eu cale a boca! Daqui a pouco vai ter homemfobia!!”

Quando acabou a ditadura:

“O problema é o povo votar em quem quer. Povo não sabe votar, o povo é ignorante mesmo. A gente tem que fazer com cuidado, mostrar a eles em quem votar, senão vai virar palhaçada essa história de democracia.”

Quando o aborto em casos de estupro e risco de vida para a mãe foi legalizado:

“Agora vai virar festa, um massacre de bebês inocentes! As mulheres saem por aí vestidas de qualquer jeito, provocam os homens, e depois reclamam? E ser mãe é se sacrificar pelo filho, essa é a maior dádiva que alguém pode ter, e agora qualquer mulher vai aparecer dizendo que foi estuprada e querer abortar. Assim não dá!”

O problema é que infelizmente vejo que ainda tem coisas aí que eu bolei que ainda são ditas. Talvez não tenhamos mudado tanto de contexto como imaginei… nesse aspecto, ao menos…

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6 Responses to “O que o Bolsonaro diria em outras épocas”

  1. Sybylla Says:

    Excelente texto. As pessoas nunca param para pensar que estão reproduzindo o velho discurso que sempre dominou o mundo que temos: do opressor sobre o oprimido, o comum sobre o que é diferente.

    Abraço!

  2. Vinicius Says:

    Issaew! Mas, quer saber? Quando vejo as lutas pela liberdade e, no fim das contas, as pessoas levam como liberdade uma limite mais amplo. Em si, Bolsonaro está certo, ele tem liberdade pra ser um puta racista/homofóbico, o que ele quiser, caso realmente seja a liberdade que desejemos.

    Digo, a luta não deve ser a favor da liberdade, pois a mesma nunca vai existir, se torna hipócrita lutar por algo que realmente não vai vir. A luta precisa ser contra os falsos defensores da humanidade. Creio que não devemos mais ficar na defensiva, nos protegendo dos malvados reacionários, devemos reprimi-los. É uma luta entre dois pontos que não se ligam.

    • maiacat Says:

      Acho que a idéia, para mim, não é reprimir os reacionários, mas conseguir abrir caminho para uma mudança de mentalidades, de forma que se torne condenável alguém dizer e pensar as coisas que ele diz. O meu objetivo do post foi justamente ver como várias coisas do que ele “diria” em outras épocas hoje soa como absurdo, justamente porque aconteceu esse processo de mudança, ainda que ele esteja incompleto (negros e mulheres, por exemplo, ainda sofrem muito preconceito).

      Obrigada pelo comentário!

      • Vinicius Says:

        Mas isso existe faz tempo. E já é superficialmente condenável, por exemplo, ser homofóbico, porém, ainda existe aquela estrutura de pensamento de que a homossexualidade é errado e que considerar homofobia algo errado é retirar do sujeito algo que lhe é básico (o direito de se defender do estranho).

        O próprio preconceito com negros e mulheres são desta forma. Ainda existe aquela estrutura básica, social, que proprociona maneiras diversas de culpar alguém pela etnia ou sexo, por mais que seja, supercialmente condenável.

        As piadas são um exemplo clássico! Piadas sobr negros são a demonstração de que há uma reação contra a liberdade social de um negro, assim como aquelas tirações de sarro sobre mulheres feias terem que agradecer estupradores…

        Obrigado pela resposta!

  3. Numa palavra… parabéns pelo texto.


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