CONTRACULTURA

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corpos 07/08/2011

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 11:43

às vezes paro pra me olhar no espelho, examinar-me, talvez conhecer-me, pois meu corpo nunca parece o mesmo. às vezes nem é no espelho, me deito, ergo as minhas pernas e fico observando os contornos da coxa, da panturrilha, meus pés ásperos, os pêlos crescendo nas pernas. e de repente me ocorre que esotu numa tentativa de recuperar de volta todas aquelas partes desintegradas, os peitos, a barriga, o bumbum, meu rosto. estão todos flutuando, cada um colocado em um sistema próprio, todos problemas a serem solucionados: erguer os peitos, tirar as celulites do bumbum, evitar que rugas surjam ao redor dos meus olhos. lembrei de uma tia minha que vive dizendo que não podemos rir muito, porque isso ajuda a criar rugas.

queria poder pegar todas essas partes e juntá-las e chamá-las de minhas, meu corpo, meu no sentido mais puro desse pronome, meu e meu. posse minha.

imaginei quantas vezes o meu namorado deveria se olhar no espelho, olhando primeiro as pernas, depois a barriga, depois seus braços, e tentando enxergar uma unidade. acho que não deve sentir a necessidade de tentar se resgatar, porque ele deve se sentir inteiro. talvez pense que poderia ser mais viril, mais musculoso. mas é difícil imaginá-lo pensando-se sempre como para o outro.

acho que vivo numa estética da exposição. minha vida toda está voltada à exposição. não só pelo circo normal da sociedade do espetáculo, mas porque o íntimo feminino construído manda isso. não me sinto inteira, meu corpo está à parte das coisas. não sinto a força, a virilidade nem pode me pertencer porque é atributo masculino, não posso pensar em vencer as coisas com a minha força física, em ultrapassar um obstáculo, me sinto descoordenada o tempo todo, meu corpo não está aqui. ele está em todos os lugares, está nos olhos famintos dos homens, está no olhar reprovador dos pais, está espremido dentro das costuras feito pra corpos que não são o meu, ele está na censura dos filmes, nos tabus, na tv, nos livros, nos quadros, nas músicas. permanente exposição. permanente correção e crítica, meu corpo explode em mil pedaços e eu não consigo nem senti-los. respiro e penso a mim mesma em fragmentos, tento me corrigir por partes.

meu corpo é uma máquina para outros corpos, não para mim mesma. meu corpo é pra desenvolver outro corpo, a mulher mais famosa do mundo é conhecida somente por ter gerado um filho. meu corpo é pra receber um corpo violento tentando me violar de alguma forma, é pra ser dos olhos. se eu me recuso a desenvolver um corpo, se eu me recuso a receber outro corpo, então eu sou nada.

ao mesmo tempo que não tenho meu corpo, meu corpo me faz e me é.

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