CONTRACULTURA

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“E enquanto isso, os políticos roubam em Brasília” 11/10/2011

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 13:11

Ultimamente tenho visto esse fenômeno – que na verdade não é recente, mas com as “discussões” públicas a respeito de temas como Hope, a propaganda da Caixa com o Machado de Assis branco e o Rafinha Bastos, ele tem aparecido aos meus olhos o numa freqüência nunca vista antes nesse País.

É o fenômeno do “enquanto isso os políticos roubam”. Essa frase é usada sempre quando se quer desclassificar uma questão importante para determinado grupo, seja os negros, as mulheres, as lésbicas, os gays, enfim, minorias em geral. Nos comentários da notícia sobre o novo vídeo feito pela Caixa, agora colocando o Machado de Assis como ele de fato era, mulato, muita gente diz: “pra que perder tempo com essas bobagens? enquanto isso, tem um monte de político roubando”.

Essa frase pode vir de outras maneiras: “e enquanto isso, tem um monte de crianças sofrendo na África”, ou “e enquanto isso a gente tá destruindo o mundo, poluindo o meio-ambiente” e por aí vai.

O mais curioso é que quase sempre as pessoas que erguem a voz para protestar (sabe-se lá porque essas lutas as incomodam tanto.. na verdade se sabe sim, é porque pode tirar elas de uma situação confortável ou privilegiada) contra o protesto dos outros quase nunca fazem nada a respeito do que dizem ser tão mais importante que tudo.

Falta a compreensão de que uma democracia é formada por diferentes vozes e diferentes lutas. Há pessoas que lutam por várias lutas ao mesmo tempo, tem gente que dedica a sua vida toda a uma única causa, tem gente que não defende nada em particular, enfim. Cada um vive uma realidade única, e tem que lidar com essa realidade. Como é que você pode dizer a um negro que se vê todos os dias lesado na sociedade que a luta dele e as preocupações dele não são importantes porque tem gente morrendo em outros países ou porque tem políticos corruptos em Brasília? Nenhuma luta deve excluir a outra. Cabe a cada um resolver as suas prioridades e lutar por elas. Não acredito que as lutas devam necessariamente ser separadas, mas com certeza não acho também que uma luta tem menor valor que a outra.

Da próxima vez que for alegar que um político está roubando “enquanto” um grupo está lutando por um direito, lembre-se de algumas coisinhas:

1) democracia é isso: muitas vozes, discussões, discordâncias. enfim, pluralidade. os direitos são conquistados, as mudanças culturais muitas vezes também o são. mulheres, gays, negros, cada um tem uma luta específica, e muitas vezes essas lutas se dialogam, mas tratam de realidades diferentes. e afetam muito grande parte da população brasileira, e, conseqüentemente, o desenvolvimento do País como um todo.

2) o que você está fazendo contra a corrupção? você por acaso é engajado em algum grupo de transparência política? vc evita ser conivente com práticas comuns do dia a dia, como comprar a carta de motorista, dar um “jeitinho” nas multas, pagar por fora para agilizar processos de obtenção de documentos entre outros?

3) o que você sabe sobre a realidade dessas pessoas que estão em determinada luta?

Enfim. Acho uma sacanagem, e acho muito de baixo nível, querer diminuir uma questão apontando para qualquer outra coisa desse tipo. Falei!

 

Mulheres no jornalismo esportivo 10/10/2011

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 16:36

fiz esse texto para a faculdade.. tá bem ruinzinho, mas vamos lá….!

Na Semana do Jornalismo de 2011 na Faculdade Cásper Líbero, na mesa sobre Jornalismo Esportivo, o jornalista Paulo Vinícius de Mello Coelho, ao ser perguntado por uma aluna a respeito da participação feminina no jornalismo esportivo, declarou: “é compreensível que se tenha preconceito contra mulheres comentaristas de futebol porque se você vai num bar à noite, quem tá discutindo futebol são rodas de homens, não de mulheres”. O raciocínio por trás de tal afirmação parece ignorar a real dimensão desse preconceito, reduzindo-o a uma mera questão de “gostos” e de estatísticas de boteco, literalmente.

Mulheres são discriminadas de forma generalizada na sociedade. Trata-se de toda uma construção de valores e idéias que determinam o que é ser mulher e o que é ser homem no mundo em que vivemos, de forma hierarquizada, em todos os níveis: na expressão corporal, nas roupas que vestimos, nos produtos que consumimos, na linguagem, enfim. Os valores associados ao mundo masculinos quase sempre estão em uma posição superior na hierarquia. Não obstante, um homem ser chamado de “mulher” ou “mulherzinha” é um insulto. Já uma mulher que se atreve a entrar em um mundo entendido como masculino precisa desde já se provar, esforçar-se para ganhar respeito e lidar com uma série de dificuldades. Quase todos os espaços ocupados pelas mulheres em público, seja simplesmente nas ruas ou em postos de trabalhos, na televisão e na política, só o foram por meio de reivindicações por mais igualdade de direitos entre os gêneros. E ainda hoje, mulheres não são facilmente aceitas em todas as situações. Em princípio, o único lugar onde as mulheres de fato são aceitas e encorajadas a explorar é o ambiente privado.

Um exemplo rápido. Se uma mulher chefe de empresa tiver filhos, por exemplo, questionarão se ela é uma boa mãe por trabalhar “tanto”, se não tiver filhos, questionarão sua “feminilidade”. Se der uma bronca em um funcionário, pode ser desqualificada sendo considerada como “estando de TPM”, se não der bronca nenhuma, dirão que é “mulherzinha demais”. Ou ainda, se for bonita demais, questionarão sua inteligência. Há também uma discriminação que dificulta o acesso feminino a cargos de importância. Em ambientes acadêmicos e políticos, por exemplo, muitas vezes movidos por tráfico de influência, o acesso das mulheres é sempre mais difícil em relação ao dos homens. E, ainda hoje, elas ganham menos, mesmo com formação e cargo equivalentes aos de uma pessoa do sexo masculino. O fator comum disso tudo é simples: preconceito de gênero. Assim, trata-se de um problema muito mais profundo, o da situação das mulheres no jornalismo esportivo.

No Brasil, um dos principais estereótipos relacionados ao que é ser “homem” é o gosto por futebol – entendido como “esporte de macho” -, ao contrário, aliás, dos Estados Unidos, onde futebol é visto como esporte de mulher. Aqui, o esporte é o lugar da construção da identidade masculina, reunindo em si diversos símbolos culturais do que é ser um homem. E enquanto os meninos são educados para gostar de futebol e torcer por um time desde pequenos, as meninas aprendem que esse não é assunto de sua seara. Muitas das que se dispõem a discutirem futebol com seus colegas são freqüentemente ridicularizadas ou têm sua autoridade sobre o assunto questionada. O ambiente futebolístico, no Brasil, não é acolhedor às mulheres (e nem aos homossexuais, aliás) por princípio. E, ainda assim, há diversas mulheres criando blogs, por exemplo, onde comentam sobre futebol, sem contar os inúmeros fóruns online em que mulheres comentam sobre o assunto. Da mesma forma que há muitos homens que não gostam de futebol, há muitas mulheres que partilham da paixão pelo esporte.

O que não existe é representação diversificada na mídia, que se contenta em reproduzir os estereótipos comuns de gênero. Muitas vezes vemos em notícias sobre futebol uma nota sobre as “musas” de um determinado campeonato, por exemplo. Não só os meios de comunicação assumem que os consumidores dessas notícias são apenas homens heterossexuais, como colocam as mulheres nessas páginas como um enfeite, sem qualquer papel mais ativo no esporte além de serem “musas”. Não por acaso, em diversas ocasiões times femininos de futebol ganham visibilidade e patrocínio somente quando fazem um calendário ou um desfile usando biquínis.

Assim, não é só pela quantidade de mulheres que falam de futebol em bares que o preconceito é “compreensível”. Compreende-se – mas não se aceita, espera-se – o preconceito em relação às mulheres porque ele é estrutural, porque há uma série de fatores que convergem para tanto. Gostos, preferências e estereótipos são construídos, sempre, e não dados naturais, assim como preconceitos. É preciso ir mais a fundo, portanto, na hora de se apresentar as razões pelas quais as comentaristas de futebol têm dificuldades em serem respeitadas: e um dos principais perpetuadores desse tipo de preconceito é a própria mídia. Faltou ao jornalista do início do texto, nesse caso, assumir essa responsabilidade.

 

 

 
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