CONTRACULTURA

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violência é questão de gênero 25/11/2010

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 10:10
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  • Hoje é o dia pelo fim da violência contra a mulher. Mas acho que não está tão claro assim, mesmo nessas iniciativas, que não se trata meramente de proteger as mulheres da violência. Não é qualquer violência, não é questão também, de dizer que mulheres são frágeis e por isso precisam de proteção “exclusiva” (afinal, não há dia pelo fim da violência contra os homens). É pelo fim da violência, principalmente, motivada por questões de gênero. O projeto é muito maior  e mais profundo do que pode parecer: é pelo fim de uma cultura que incentiva esse tipo de violência. Que educa meninas para serem submissas, meninos para se expressarem através de atos violentos. A submissão é a perfeita afirmação de feminilidade. A violência, perfeita expressão de masculinidade. É isso que temos que mudar.
  • É preciso, também, ter cuidado para não cairmos em falácias, como dizer que as mulheres que não prestam queixa, ou que não se divorciam, “merecem” a violência que sofrem. O buraco é muito mais embaixo. Sem contar o tratamento nas delegacias, que buscam desqualificar a versão da mulher, e também a agressão sofrida como algo menor, a questão de que muitas mulheres foram ensinadas a se conformar com esse tipo de coisa, o medo que uma ameaça provoca (principalmente quando há crianças envolvidas), o fato de que a sociedade, ao saber desse tipo de coisa, costuma culpar a vítima.
  • Outra coisa que me incomoda, também, nesse tipo de campanha, são as frases do tipo “homem que é homem não bate em mulher”. Porque de novo recaímos nessas concepções rígidas e limitantes do que é “ser homem”, do que é “ser mulher”. Além disso, um homem se afirmar homem porque não bate em mulher, especificamente, e não em qualquer ser humano, denota uma relação de inferioridade, também. Afinal, em homem pode bater sem problemas por quê? Porque ele sim agüenta? E afinal, porque temos que nos expressar tanto através da violência? Penso que esse é um problema maior da nossa cultura brasileira.
  • E, por último, parar de associar violência a mulher como um problema doméstico, e ainda, de classes mais baixas. É uma questão de todas as classes, e é um problema público. É um problema da sociedade. E também parar de relacionar só a casais. Uma violência contra a filha, baseada no fato de que ela é mulher, não conta, também? Ou ainda, a violência que mata não é só a física. São as pequenas violências, sofridas diariamente pelas mulheres, desde que nascem, que naturalizam esse tipo de coisa. Mas é sempre bom lembrar que as relações sociais são construídas, montadas e desmontadas, num jogo de vozes, sujeitos. Assumir que algo é “natural” é meramente se conformar a um modelo que pode, sim, ser mudado.
 

Sobre provocação e vigilância 28/10/2010

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 16:37
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Essa história toda do horrível rodeio de gordas, juntamente com as discussões na lista de blogueiras feministas e mais a entrevista da Preta Gil me fizeram pensar nisso. Nisso de provocação e vigilância, que já já vou explicar. Antes só queria dizer que eu não vou comentar só o rodeio especificamente porque acho que elas já disseram tudo que eu diria (ainda que nesse caso nunca seja demais..).

O negócio é o seguinte. Como comentei num dos e-mails e depois uma outra pessoa também comentou, uma pessoa como a Geisy, ou uma mulher gorda, ou qualquer pessoa que desafie algum tipo de parâmetro da sociedade e/ou da mídia, é uma provocação. Afinal, a Preta Gil posando nua em seu encarte foi alvo de tantas piadas, tantas críticas, tantos comentários ofensivos por quê? Nunca vi ninguém falando da Britney, por exemplo, ou da Christina Aguilera, que já posaram semi-nuas ou nuas em seus respectivos encartes. E elas são só dois exemplos.

É que a Preta Gil é gorda, e pra piorar, é negra. Quer provocação? Ela nua no encarte de seu cd, se sentindo à vontade, em poses sensuais, mas que pelo visto são somente reservadas a quem a sociedade/mídia aprova. E o que acontece quando você se revolta, faz algo que não é esperado de você? Você é punido, das mais diversas formas. Desde as mais sutis até as escancaradas. Desde piadinhas rotineiras sobre gordas até rodeios. Não vejo porque separar muito uma coisa da outra. Pra mim, como a Lola também comentou no fim de seu texto, é tudo parte da mesma coisa. São formas que a própria sociedade cria pra que seus padrões culturais, para que as idéias dominantes permaneçam estáveis. É uma coisa repressiva, mas sutil. Sabe quando você é pequeno e vai fazer alguma coisa que te deu na telha e nem bem você começa e já vê o olhar da sua mãe ou do seu pai? Eles não disseram nada, mas só pelo olhar deles você já se sente errado de tá querendo fazer aquilo. Agora imagine que a sociedade toda tem um grande olho, e dá esse olhar a tudo e a todos sempre que precisar, das formas mais variadas e diversas.

Todo mundo critica os caras da Unesp, os caras da Uniban, os caras da USP (no caso da homofobia). O caso é que eles só foram mais explícitos em seus mecanismos de controle. Sem querer, é claro, diminuir a gravidade da questão ou o nível de humilhação, que tenho certeza que devem ser muito mais traumáticos do que outras coisas. Só quero dizer que é melhor ter uma visão mais ampliada da coisa, e não enxergar esses casos como isolados. Eles são só uma parte disso tudo, de um grande sistema vigilante e punitivo. Geisys e Pretas Gil, afinal, devem ser postas em seus lugares, não?…

 

 
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