CONTRACULTURA

confira a seção links com indicações sobre vários temas!

Rasos e rasuras 24/09/2012

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 15:58

Vou ser arrogante no texto a seguir, mas chega de me importar com isso: o que mais vejo por aí é pensamento raso. Contraditoriamente, toda essa rasidão dá lugar a um poço sem fundo de bobagens. É cada frase dita de maneira final e certa, mas que na verdade não diz nada além de “não lave o cabelo se estiver menstruada” que eu fico cansada de verdade.

Tem muita gente estudada, se isso quer dizer alguma coisa (e eu acho que não quer), que parece que pulou aquela aula no maternal sobre pontos de vista. Bom, eu ainda me lembro das primeiras lições sobre ponto de vista, e foi algo como eu querer ter um brinquedo só pra mim, mas ter que emprestá-lo para os colegas. E o processo de compreender por que raios eu tinha que emprestar algo para alguém veio da compreensão de que há o outro, a necessidade dele e a justiça geral do universo no meio disso tudo e que então, o ponto de vista do outro deveria ser compreendido. E mais do que isso, deveria ser legitimado.

Talvez seja muita compreensão para uma pessoa só.

Mas o fato é que essa lição simples nos leva a coisas muito maiores, como, ao ler sobre um tema, a gente não se contentar em ficar naquelas frases chavões e de efeito. E ao acompanhar um debate, a gente entender que as coisas nunca têm um lado só. E ao ler conceitos e idéias, se lembrar que não só existem diferentes conceitos e idéias, mas também diferentes visões e acepções desses mesmos conceitos e idéias, e que cada uma dessas visões obedecem a diferentes pontos de vistas que por sua vez obedecem a diferentes interesses, contextos sócio-econômico-culturais e que também podem ter a ver com o fato de alguém ter tomado muita água ou não em tal dia. Sabe, são tantos fatores a serem considerados, que na verdade não é possível chegar a todos eles. A não ser que você tenha tomado uma dose louca de cartesianismo e ache que isso seja de fato possível, mas ó, eu não acho que seja.

Lá atrás o Nietzsche já falou em multiperspectividade que é tipo isso aí, tentar pensar nas coisas pelo maior número de perspectivas possíveis, tentar abarcar as muitas realidades que um único objeto pode ter. E tipo. Admitir que se possa ter mais de uma verdade ou possibilidade em relação a alguma coisa é só o primeiro passo. O primeiríssimo. Do tipo que você faz quando aprende que tem que emprestar o brinquedo mesmo sem querer emprestar, mesmo que no seu mundo, e no seu ponto de vista, emprestar brinquedo seja a coisa mais desnecessária, indesejável e despropositada do mundo inteiro. 

Mas tudo bem. Se não se quer ser multiperspectivético, o problema é seu. Mas o problema passa a ser meu quando a criatura vem com aquele ar de subversivo sofredor, num pondenianismo mal disfarçado ao estilo “guia politicamente incorreto”, dizer frases que todo mundo já cansou de ouvir com ares de quem diz a verdade irrefutável sobre as coisas. Como se houvesse uma verdade, e como se houvesse algo irrefutável. Ainda mais os dois juntos, então. 

E afirma o que já tá sendo afirmado há séculos, categoriza os outros em rótulos empoeirados – e injustificados – rolam os olhos como uma autoridade cansada de discursar sobre o tema, aponta o dedo para os outros e fica indignado quando alguém discorda, e aliás, todo mundo que discorda vira “comuna”. E por mais que você argumente, te rechaça com outras frases chavões, e você tem a impressão de que a pessoa anda cega e isolada pelo mundo, como um louco que só ouve a sua própria voz e só vê o que quer. Isso tudo me dá tanta preguiça que eu nem vou terminar o texto.

Tchau!

 

pensamento aleatório 12/04/2012

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 18:57

fui começar a escrever prum trabalho, com as declarações dos anti-abortistas ainda em mente, e acabei escrevendo isso sem pensar:

“vão se foder todos vocês. tô cansada dessas punhetices mentais, fica fazendo punhetinha com os pensamentos para conseguir aquilo que quer, aquilo lhe dará prazer. nada mais é do que manipulação do que estiver disponível a fim de satisfazer seu desejo daquele momento.”

não é nem um pouco brilhante, diplomático, razoável, ou mesmo racional, mas acho que define bem o que sinto quando ficam falando sobre “mas o bebê anencefálico pode sobreviver por algumas horas, então abortar é impedir uma vida”. punhetice define bem, viu.

 

“E enquanto isso, os políticos roubam em Brasília” 11/10/2011

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 13:11

Ultimamente tenho visto esse fenômeno – que na verdade não é recente, mas com as “discussões” públicas a respeito de temas como Hope, a propaganda da Caixa com o Machado de Assis branco e o Rafinha Bastos, ele tem aparecido aos meus olhos o numa freqüência nunca vista antes nesse País.

É o fenômeno do “enquanto isso os políticos roubam”. Essa frase é usada sempre quando se quer desclassificar uma questão importante para determinado grupo, seja os negros, as mulheres, as lésbicas, os gays, enfim, minorias em geral. Nos comentários da notícia sobre o novo vídeo feito pela Caixa, agora colocando o Machado de Assis como ele de fato era, mulato, muita gente diz: “pra que perder tempo com essas bobagens? enquanto isso, tem um monte de político roubando”.

Essa frase pode vir de outras maneiras: “e enquanto isso, tem um monte de crianças sofrendo na África”, ou “e enquanto isso a gente tá destruindo o mundo, poluindo o meio-ambiente” e por aí vai.

O mais curioso é que quase sempre as pessoas que erguem a voz para protestar (sabe-se lá porque essas lutas as incomodam tanto.. na verdade se sabe sim, é porque pode tirar elas de uma situação confortável ou privilegiada) contra o protesto dos outros quase nunca fazem nada a respeito do que dizem ser tão mais importante que tudo.

Falta a compreensão de que uma democracia é formada por diferentes vozes e diferentes lutas. Há pessoas que lutam por várias lutas ao mesmo tempo, tem gente que dedica a sua vida toda a uma única causa, tem gente que não defende nada em particular, enfim. Cada um vive uma realidade única, e tem que lidar com essa realidade. Como é que você pode dizer a um negro que se vê todos os dias lesado na sociedade que a luta dele e as preocupações dele não são importantes porque tem gente morrendo em outros países ou porque tem políticos corruptos em Brasília? Nenhuma luta deve excluir a outra. Cabe a cada um resolver as suas prioridades e lutar por elas. Não acredito que as lutas devam necessariamente ser separadas, mas com certeza não acho também que uma luta tem menor valor que a outra.

Da próxima vez que for alegar que um político está roubando “enquanto” um grupo está lutando por um direito, lembre-se de algumas coisinhas:

1) democracia é isso: muitas vozes, discussões, discordâncias. enfim, pluralidade. os direitos são conquistados, as mudanças culturais muitas vezes também o são. mulheres, gays, negros, cada um tem uma luta específica, e muitas vezes essas lutas se dialogam, mas tratam de realidades diferentes. e afetam muito grande parte da população brasileira, e, conseqüentemente, o desenvolvimento do País como um todo.

2) o que você está fazendo contra a corrupção? você por acaso é engajado em algum grupo de transparência política? vc evita ser conivente com práticas comuns do dia a dia, como comprar a carta de motorista, dar um “jeitinho” nas multas, pagar por fora para agilizar processos de obtenção de documentos entre outros?

3) o que você sabe sobre a realidade dessas pessoas que estão em determinada luta?

Enfim. Acho uma sacanagem, e acho muito de baixo nível, querer diminuir uma questão apontando para qualquer outra coisa desse tipo. Falei!

 

Mulheres no jornalismo esportivo 10/10/2011

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 16:36

fiz esse texto para a faculdade.. tá bem ruinzinho, mas vamos lá….!

Na Semana do Jornalismo de 2011 na Faculdade Cásper Líbero, na mesa sobre Jornalismo Esportivo, o jornalista Paulo Vinícius de Mello Coelho, ao ser perguntado por uma aluna a respeito da participação feminina no jornalismo esportivo, declarou: “é compreensível que se tenha preconceito contra mulheres comentaristas de futebol porque se você vai num bar à noite, quem tá discutindo futebol são rodas de homens, não de mulheres”. O raciocínio por trás de tal afirmação parece ignorar a real dimensão desse preconceito, reduzindo-o a uma mera questão de “gostos” e de estatísticas de boteco, literalmente.

Mulheres são discriminadas de forma generalizada na sociedade. Trata-se de toda uma construção de valores e idéias que determinam o que é ser mulher e o que é ser homem no mundo em que vivemos, de forma hierarquizada, em todos os níveis: na expressão corporal, nas roupas que vestimos, nos produtos que consumimos, na linguagem, enfim. Os valores associados ao mundo masculinos quase sempre estão em uma posição superior na hierarquia. Não obstante, um homem ser chamado de “mulher” ou “mulherzinha” é um insulto. Já uma mulher que se atreve a entrar em um mundo entendido como masculino precisa desde já se provar, esforçar-se para ganhar respeito e lidar com uma série de dificuldades. Quase todos os espaços ocupados pelas mulheres em público, seja simplesmente nas ruas ou em postos de trabalhos, na televisão e na política, só o foram por meio de reivindicações por mais igualdade de direitos entre os gêneros. E ainda hoje, mulheres não são facilmente aceitas em todas as situações. Em princípio, o único lugar onde as mulheres de fato são aceitas e encorajadas a explorar é o ambiente privado.

Um exemplo rápido. Se uma mulher chefe de empresa tiver filhos, por exemplo, questionarão se ela é uma boa mãe por trabalhar “tanto”, se não tiver filhos, questionarão sua “feminilidade”. Se der uma bronca em um funcionário, pode ser desqualificada sendo considerada como “estando de TPM”, se não der bronca nenhuma, dirão que é “mulherzinha demais”. Ou ainda, se for bonita demais, questionarão sua inteligência. Há também uma discriminação que dificulta o acesso feminino a cargos de importância. Em ambientes acadêmicos e políticos, por exemplo, muitas vezes movidos por tráfico de influência, o acesso das mulheres é sempre mais difícil em relação ao dos homens. E, ainda hoje, elas ganham menos, mesmo com formação e cargo equivalentes aos de uma pessoa do sexo masculino. O fator comum disso tudo é simples: preconceito de gênero. Assim, trata-se de um problema muito mais profundo, o da situação das mulheres no jornalismo esportivo.

No Brasil, um dos principais estereótipos relacionados ao que é ser “homem” é o gosto por futebol – entendido como “esporte de macho” -, ao contrário, aliás, dos Estados Unidos, onde futebol é visto como esporte de mulher. Aqui, o esporte é o lugar da construção da identidade masculina, reunindo em si diversos símbolos culturais do que é ser um homem. E enquanto os meninos são educados para gostar de futebol e torcer por um time desde pequenos, as meninas aprendem que esse não é assunto de sua seara. Muitas das que se dispõem a discutirem futebol com seus colegas são freqüentemente ridicularizadas ou têm sua autoridade sobre o assunto questionada. O ambiente futebolístico, no Brasil, não é acolhedor às mulheres (e nem aos homossexuais, aliás) por princípio. E, ainda assim, há diversas mulheres criando blogs, por exemplo, onde comentam sobre futebol, sem contar os inúmeros fóruns online em que mulheres comentam sobre o assunto. Da mesma forma que há muitos homens que não gostam de futebol, há muitas mulheres que partilham da paixão pelo esporte.

O que não existe é representação diversificada na mídia, que se contenta em reproduzir os estereótipos comuns de gênero. Muitas vezes vemos em notícias sobre futebol uma nota sobre as “musas” de um determinado campeonato, por exemplo. Não só os meios de comunicação assumem que os consumidores dessas notícias são apenas homens heterossexuais, como colocam as mulheres nessas páginas como um enfeite, sem qualquer papel mais ativo no esporte além de serem “musas”. Não por acaso, em diversas ocasiões times femininos de futebol ganham visibilidade e patrocínio somente quando fazem um calendário ou um desfile usando biquínis.

Assim, não é só pela quantidade de mulheres que falam de futebol em bares que o preconceito é “compreensível”. Compreende-se – mas não se aceita, espera-se – o preconceito em relação às mulheres porque ele é estrutural, porque há uma série de fatores que convergem para tanto. Gostos, preferências e estereótipos são construídos, sempre, e não dados naturais, assim como preconceitos. É preciso ir mais a fundo, portanto, na hora de se apresentar as razões pelas quais as comentaristas de futebol têm dificuldades em serem respeitadas: e um dos principais perpetuadores desse tipo de preconceito é a própria mídia. Faltou ao jornalista do início do texto, nesse caso, assumir essa responsabilidade.

 

 

Meninas e Meninos na Literatura Infantil 24/09/2011

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 10:00
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Desde pequena gostei muito de ler e de escrever. Me imaginava uma futura escritora, imaginava os livros que eu iria escrever, desenhava a capa, escolhia a editora… Lembro que escrevia ainda naquele computador com o sistema MS-DOS com aqueles disquetões, e meu pai havia feito alguma gambiarra que a nossa impressora era uma máquina de escrever ligada ao computador. Mas divago.

Quero chamar a atenção para um fato: por muito tempo, enquanto eu escrevia minhas histórias, meus narradores eram homens.  À época já eu me dava conta disso, me perguntava porque eu preferia tanto sair escrevendo um narrador masculino. A resposta: porque era mais natural. Afinal, eu passei a escrever por gostar muito dos livros que eu lia, e quase todos eram centrados em personagens masculinas. Os livros mais emocionantes, de aventura, magia e mistério eram sempre centrados em figuras masculinas, mesmo quando havia personagens femininas no grupo principal, sei lá. Isso se agravou quando passei a ler clássicos da literatura, nos quais as mulheres muitas vezes nem têm qualquer papel mais especial além de ser o “love interest”, e quase nunca são as narradoras. O narrador é sempre visto como um homem, mesmo que não seja em primeira pessoa, imaginamos que é um homem a contar a história.

Alguns exemplos dos meus livros preferidos na época: Oliver Twister, A Fantástica Fábrica de Chocolate, O Lago da Memória (um livro de um autor brasileiro chamado Ivanir Calado, não sei dizer quantas vezes li esse livro, adorava), O Menino no Espelho, Cazuza (do Viriato Correia, não é sobre o cantor), O Meu Pé de Laranja Lima, A Volta ao Mundo em 80 Dias, Pollyanna, O Jardim Secreto, A Princesinha, O Gênio do Crime, Sangue Fresco, alguns livros do Pedro Bandeira, O Físico (eu amava esse livro, do Noah Gordon) e sua continuação, O Xamã, também do mesmo autor O Último Judeu. Quando Harry Potter saiu, me apaixonei pela série, e comecei a ler também uma série de outros livros de magia, como a série A Sétima Torre (cujos protagonistas são um menino e uma menina que vem de uma sociedade matriarcal, agora me lembro), a série Os Mundos de Crestomanci (o personagem principal é um menino/homem, dependendo do livro, o Gato Chant), Senhor dos Anéis (é praticamente o clube do bolinha essa série huauha) e a trilogia das Fronteiras do Universo (A Bússola Dourada, A Faca Sutil e A Luneta de Âmbar, pelo que me lembre). Aliás, essa última é a única que tem como personagem principal uma garota. Mas a maioria desses livros é centrada em meninos, homens, enfim. As exceções são: Pollyanna, O Jardim Secreto (que ainda assim, a história depois se centra mais nos meninos da história, o Dickon e o filho do Craven, esqueci o nome dele) e A Princesinha (aqui é só girls only mesmo, e eu adorava esse livro huahua).

 

Pollyanna cheirando margaridas e Oliver Twist correndo por aí.

Mas percebo também que muitos dos livros que mais me marcaram tinham personagens femininas em destaque, talvez por isso parecer ser tão raro. Por exemplo, a série também de magia, a do Trílio Negro, que foi escrita por três autoras (Marion Zimmer Bradley, Andre Norton e Julia May). Cada autora era encarregada por uma das três personagens principais, que eram três irmãs que deveriam salvar o reino delas. Lembro que aqueles livros foram maravilhosos de ler na época (tinha uns 10 anos) porque eu podia me identificar tanto com elas. E cada uma tinha uma personalidade diferente. A Kadiya, por exemplo, personagem da Andre Norton, era do tipo que gostava de lutar, que não aceitava fugir de um confronto, andava por pântanos sem reclamar etc. Já a Anigel, personagem de Julia May, era mais do tipo “delicado”, digamos. Mas todas eram fortes e originais à sua maneira.

O meu livro preferido da infância, que não incluí na lista anterior, é de quando eu comecei a aprender a ler. Ele também tinha como personagem principal uma menina: era Matilda, do Roald Dahl. A personagem principal era uma menina odiada pelos pais, que se destacava por ser muito inteligente, por amar ler livros, e era através dessa sua inteligência que ela age durante todo o livro. Não sei dizer também quantas vezes li esse livro, querendo ser que nem a Matilda.

Matilda é poderosa porque ama ler e é inteligente, yey!

Mas antes de conhecer esses livros de magia, ou seja, na minha era “pré-HP”, eu lia todos aqueles livros que citei antes. E enquanto a histórias centradas em figuras masculinas eram cheias de aventuras, deslocamentos por vários lugares, conflitos etc, as de meninas ocorriam mais em ambientes privados: a Princesinha ocorre dentro de um internato; O Jardim Secreto, dentro de uma mansão; Pollyanna, dentro de uma mansão. E em comum, as três personagens não têm mãe e pai – a Princesinha pode até ter um pai, mas ele tá na guerra -, e são levadas sozinhas a um ambiente estranho, onde elas têm que “conquistar” seus novos mentores e figuras adultas na vida.

As aventuras da Princesinha e de Mary Lennox

Eu adoro essas personagens, não me levem a mal, mas é gritante a diferença entre elas e seu mundo privado e os meninos e suas aventuras diversas. Matilda, ainda que se desloque entre a escola, a casa etc, ainda é também restrita ao mundo privado. Os principais conflitos dessas personagens femininas são de relações interpessoais: com os pais, com amigos, com novos mentores no caso de meninas órfãs etc. Ou seja, são conflitos “privados” também, digamos. Ainda que possam ser personagens fortes e inspiradoras, são personagens que não saem pelo mundo afora em busca de aventuras. Ia ser muito mais interessante se os livros contassem aventuras de todos os tipos tanto de meninos quanto de meninas, sem essa divisão.

Na literatura mais adulta, tenho a sensação que o mesmo ocorre muitas vezes. Livros centrados por mulheres apresentam conflitos muito mais subjetivos e/ou privados do que os centrados em homens. Um exemplo mais popular: chick flicks.  O mesmo acontece nos filmes: o padrão é filme estrelado por homens ou um homem, e quando nos desviamos desse padrão, se tornam comédias românticas, quase sempre. Mulheres envolvidas em seus conflitos românticos, basicamente. Obviamente há várias e boas exceções, mas elas não são suficientes para reverter o quadro.

Então diante de tudo isso, talvez eu entenda o porquê de quando eu queria escrever histórias mais emocionantes, eu escrevesse sobre um menino ou sobre um homem. Só mais tarde passei a me centrar em personagens femininas nas minhas histórias, e não por acaso, foi depois de conhecer os livros de magia e aventura protagonizados por mulheres. Acho que posso dizer, com segurança, que uma representação mais diversificada na literatura infantil de meninos e meninas com certeza afetaria positivamente as futuras criações e a maneira como as próprias crianças se enxergam enquanto pertencentes a um gênero ou a outro.

E se eu fosse então falar sobre representação de negros na literatura, ou melhor, de negras, a situação iria ficar ainda mais complicada. E de homossexuais, então? A gente fala muito de filmes, de séries de TV, novelas, mas muito pouco dos livros. Talvez por eles parecerem mais intocáveis, ficam ali, mui sisudos nas estantes respeitáveis etc, mas vale um questionamento também. Ninguém vai mudar o que foi escrito – e eu não gostaria, certamente, que fizessem isso huauha -, mas acho que vale o questionamento, identificar como a obra confirma ou não papéis de gênero, e como ela pode afetar a visão de um garoto ou uma garota que a lê.

Girl Reading, de  Charles Edward Perugini, 1879

 

corpos 07/08/2011

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 11:43

às vezes paro pra me olhar no espelho, examinar-me, talvez conhecer-me, pois meu corpo nunca parece o mesmo. às vezes nem é no espelho, me deito, ergo as minhas pernas e fico observando os contornos da coxa, da panturrilha, meus pés ásperos, os pêlos crescendo nas pernas. e de repente me ocorre que esotu numa tentativa de recuperar de volta todas aquelas partes desintegradas, os peitos, a barriga, o bumbum, meu rosto. estão todos flutuando, cada um colocado em um sistema próprio, todos problemas a serem solucionados: erguer os peitos, tirar as celulites do bumbum, evitar que rugas surjam ao redor dos meus olhos. lembrei de uma tia minha que vive dizendo que não podemos rir muito, porque isso ajuda a criar rugas.

queria poder pegar todas essas partes e juntá-las e chamá-las de minhas, meu corpo, meu no sentido mais puro desse pronome, meu e meu. posse minha.

imaginei quantas vezes o meu namorado deveria se olhar no espelho, olhando primeiro as pernas, depois a barriga, depois seus braços, e tentando enxergar uma unidade. acho que não deve sentir a necessidade de tentar se resgatar, porque ele deve se sentir inteiro. talvez pense que poderia ser mais viril, mais musculoso. mas é difícil imaginá-lo pensando-se sempre como para o outro.

acho que vivo numa estética da exposição. minha vida toda está voltada à exposição. não só pelo circo normal da sociedade do espetáculo, mas porque o íntimo feminino construído manda isso. não me sinto inteira, meu corpo está à parte das coisas. não sinto a força, a virilidade nem pode me pertencer porque é atributo masculino, não posso pensar em vencer as coisas com a minha força física, em ultrapassar um obstáculo, me sinto descoordenada o tempo todo, meu corpo não está aqui. ele está em todos os lugares, está nos olhos famintos dos homens, está no olhar reprovador dos pais, está espremido dentro das costuras feito pra corpos que não são o meu, ele está na censura dos filmes, nos tabus, na tv, nos livros, nos quadros, nas músicas. permanente exposição. permanente correção e crítica, meu corpo explode em mil pedaços e eu não consigo nem senti-los. respiro e penso a mim mesma em fragmentos, tento me corrigir por partes.

meu corpo é uma máquina para outros corpos, não para mim mesma. meu corpo é pra desenvolver outro corpo, a mulher mais famosa do mundo é conhecida somente por ter gerado um filho. meu corpo é pra receber um corpo violento tentando me violar de alguma forma, é pra ser dos olhos. se eu me recuso a desenvolver um corpo, se eu me recuso a receber outro corpo, então eu sou nada.

ao mesmo tempo que não tenho meu corpo, meu corpo me faz e me é.

 

O que o Bolsonaro diria em outras épocas 25/05/2011

Filed under: Uncategorized — gertrudenotstein @ 18:23
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Esses dias tenho me escandalizado com a celebração do “politicamente incorreto”, dos preconceitos e de um moralismo tradicional recheado de machismo e elitismo. Fico pensando como as pessoas que se orgulham de dizer que são “bem humoradas”, não são “ranzinzas” e portanto conseguem ver a graça em uma piada sobre estupro, não percebem o quão preconceituosas e retrógradas estão sendo. Penso que quando deslocamos as coisas de contexto, fica mais fácil perceber o quão isso tudo é absurdo. Digo sem pudor algum, eu acho sim um absurdo. E acho mais absurdo ainda que as pessoas confundam o direito à expressão com o direito a falar sem ser ter que sofrer qualquer tipo de resposta ou ressalva. Quando falam uma piada preconceituosa e alguém lhes chama a atenção – e não censura – já ficam exaltados: tenho o direito de falar o que quiser! é o direito à liberdade de expressão!. Sim, você pode falar tudo o que te der na telha. Ninguém te proíbe disso. Mas você pode e deve sofrer conseqüências se o que você fala for ofensivo para um grupo ou para alguém. Nenhum direito é absoluto.

Fonte: clique na imagem

Com isso de deslocar o contexto, pensei um pouco sobre o que os “politicamente incorretos”, ou mais diretamente, os famosos reacionários, diriam em diversas épocas. Fique claro que é caricatura, e generalização. E não seria preciso afirmar, mas obviamente repudio tudo isso que “inventei“.

Na abolição da escravatura:

“Agora todo mundo tá dizendo que negro não pode ser forçado a trabalhar. Ninguém tá vendo que é natural que negros sejam assim? Eles não têm como fazer um trabalho intelectual, como nós, brancos. E eu digo isso e as pessoas me criticam. Daqui a pouco vai ter brancofobia!!!”

Quando as mulheres passaram a poder votar:

“E a família, como fica? Se a mulher for ficar se metendo em assuntos políticos, como ficam nossas crianças, nossos lares, nossa comida, nossa roupa? Agora mulher tem que meter o bico em tudo, e quem vai falar contra é tachado de ‘conservador’. Eu não, eu sou com orgulho defensor da família tradicional, com Deus no coração. E o pessoal quer que eu cale a boca! Daqui a pouco vai ter homemfobia!!”

Quando acabou a ditadura:

“O problema é o povo votar em quem quer. Povo não sabe votar, o povo é ignorante mesmo. A gente tem que fazer com cuidado, mostrar a eles em quem votar, senão vai virar palhaçada essa história de democracia.”

Quando o aborto em casos de estupro e risco de vida para a mãe foi legalizado:

“Agora vai virar festa, um massacre de bebês inocentes! As mulheres saem por aí vestidas de qualquer jeito, provocam os homens, e depois reclamam? E ser mãe é se sacrificar pelo filho, essa é a maior dádiva que alguém pode ter, e agora qualquer mulher vai aparecer dizendo que foi estuprada e querer abortar. Assim não dá!”

O problema é que infelizmente vejo que ainda tem coisas aí que eu bolei que ainda são ditas. Talvez não tenhamos mudado tanto de contexto como imaginei… nesse aspecto, ao menos…

 

 
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